quinta-feira, 5 de novembro de 2009

As virtudes da Mentira

A mentira é um vício apenas quando faz mal, quando faz bem é uma grande virtude”.

Jacques Anatole France


Esta semana dei comigo, com uma grande vontade de ir ao cinema. Depois de lutar, contra a minha pouca energia para sair de casa, dei comigo, em frente ao cinema tentado escolher uma película que me agradasse. De imediato surgiu, “The Invention of Lying” (que traduzido em Português literal, significa a “Invenção da Mentira”). Nunca eu pensei que tal filme, categorizado como uma comédia, me deixasse a pensar sobre as “Virtúdes da Mentira”.

Segundo a Wikipédia, a Mentira é uma declaração feita por alguém que acredita ou suspeita que ela seja falsa, na expectativa de que os ouvintes ou leitores possam acreditar nela. "Mentir" é contar uma mentira. Uma pessoa que conta uma mentira, em especial uma pessoa que conta mentiras com frequência, é um "mentiroso".

Parece simples não,.....pois infelizmente, não é. Fomos criados numa sociedade que tem como valor moral, a não utilização da mentira. Desde pequenos somos educados a não mentir. Ouvimos, desde cedo, expressões tal como “Mentir é feio”, “Se mentires, cresce-te o nariz”, entre outras. Até temos uma história infantil, que nos mostra que um menino que mente, é fustigado com um aumento do nariz, de forma a que ensinemos às crianças que, mentir é errado. Mas apesar de tudo isto, e em especial quando crescemos, prosseguimos a mentir sistemáticamente e, por mais incrivel que pareça, consideramos que as crianças na sua honestidade, são seres crueis, umas com as outras, tudo isto, quando elas somente estão a levar a cabo que lhes ensinados em relação à mentira.

Mas, e se encararmos a mentira, não como algo prejudicial, mas sim como um bem fazer a outro indíviduo.

Claro que para distinguirmos, entre estas duas perspectivas temos que aprofundar o pretexto da mentira. Toda a história cristã, está repleta de narrativas onde alguém “mente” face a uma advertência, temos por exemplo, a lenda da Rainha Santa Isabel.

D. Isabel dedicou a sua vida a fazer o bem, alimentando, vestindo, tratando sempre os mais necessitados. Na corte havia quem achasse que a rainha fazia gastos demais, e fosse intrigar junto do rei. D. Dinis proibiu a rainha de continuar ajudar os mais necessitados. Um belo dia de Janeiro – quando as rosas ainda não estão em flor D. Isabel saiu dos seus aposentos, com o manto cheio de pão para dar aos pobres, quando se cruzou com o rei, que estava à espera de a apanhar.
- Onde ides tão cedo? – perguntou D. Dinis
- À igreja de Santa Cruz, enfeitar os altares
- E que levais no regaço?
- São rosas Senhor
- Rosas em Janeiro? Quereis enganar-me?
- A Rainha de Portugal não mente.
D. Isabel abriu o manto e deixou cair belíssimas Rosas Brancas. Assim é a lenda do milagre das Rosas.

Segundo este exemplo, e muitos outros por toda a história, mentir não só serviu para salvar o real traseiro da Rainha D.Isabel, como para provar que se mentirmos por um bom motivo não devemos encarar uma punição.

Mas em última análise, o que é que pode ser considerado um “bom motivo”.

Reportemos agora a outro filme, desta vez, uma comédia romântica: “Ele não está assim tão interessado” (filme que qualquer rapariga que foi recentemente abandonada deveria ver).
Mas, para quem ainda não viu, a história começa com um garoto, que além de empurrar uma menina indefesa ainda a insulta, e quando ela, reporta a história para a sua mãe, esta tem esta reacção:
- Aquele garotinho faz estas coisas horríveis por que ele tem uma queda por ti.
E aí está! Uma mentira que consciente ou não, molda o nosso pensamento e o nosso futuro nas relações. Porque, tal como a autora nos diz: “Somos todas encorajadas, não, programadas para acreditar que se o rapaz age como um idiota, é porque ele gosta de nós”.
Mas em última análise, porque é que dizemos estas coisas umas às outras? Será que neste caso uma mentira piedosa, vale mais do que mil verdades? Será que os benefícios de contar uma mentira a alguém que acabou de ser abandonado suplantam as virtudes da verdade?

Ok! Podemos então afirmar, que se for para nos salvar de uma situação em que estamos a fazer o bem ou se for para protejer os sentimentos de uma pessoa amiga, é legítimo mentir.

Contudo, nos dias que correm, será que, a mentira foi tão frequentemente utilizada que o seu sentido, ultimamente parece tender a ser banalizado?

A resposta a esta questão é: sim. Tanto que desde meados de 1560 que possuímos um dia, que celebra o que temos como valor imoral: 1ºde Abril – dia das mentiras, onde mentir e pregar partidas é tido como saudável e até esperado.

E assim já temos três situações, onde mentir não é considerado como impúdico.

Em última análise, e perante a sociedade dos dias de hoje, penso então que, desde que o intuito da mentira não seja enganar deliberadamente o leitor ou ouvinte, esta seja contada no 1ºde Abril e especialmente se for para proteger o coração do ouvinte de uma verdade mais cruel, esta não só pode ser dita como deve ser encorajada. E assim podemos concluír que o mundo não é feito de somente de pretos e brancos, que existem muitas àreas cinzentas.

1 comentário:

  1. Uma mentira não é mais que um engano a nós próprios... Se não aguentamos dizer sempre a verdade, ou ouvir sempre a verdade, só revela fraquezas. Que todos nós temos! Por isso todos nós mentimos, todos preferimos que, em algumas situações, nos mintam em vez de nos matarem com a verdade...

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